Por: Jornal Página Popular

Existe um lugar em Hortolândia, mais precisamente no bairro Jardim Santa Emília, em que o Dia da Consciência Negra, que será comemorado na próxima quarta-feira (20), pode se ser compreendido muito mais intensamente. Ao entrar no Ateliê Elvis da Silva, parece que a vivência dos negros na escravidão retorna aos dias atuais, mas com uma compreensão história muito mais rica e colorida. Basta olhar em cada canto do ateliê que, mesmo quem não tem proximidade com a identidade negra, entenderá o sentido histórico de se comemorar a Consciência.

Lá, por exemplo, pode-se apreciar uma releitura da obra Navio Negreiro, de Willian Turner, com uma compreensão pós os anos de 1850, obras de Di Cavalcanti e Portinari, os rostos de Nelson Mandela, Martin Luther King, Zumbi dos Palmares, Hercules Florence, figuras mais atuais como a professora Petronilha e Kabengele Munanga, dentre outras tantas figuras que têm papel fundamental na valorização dos negros em todo o mundo.

O artista plástico Elvis da Silva começou a pintar como hobby e hoje é referência em todo o Brasil como pintor que eterniza nos quadros as imagens das relações étnicas raciais baseadas nas leis 10639 /00 e 11645/00 – que tratam sobre a inclusão da educação para as
relações étnico-raciais, do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, promoção da igualdade racial e enfrentamento ao racismo nos programas e ações do Ministério da Educação.

“Eu quero deixar a marca do meu trabalho aqui em Hortolândia, fazer com que a cidade tenha essa proximidade com a cultura negra. Aqui já tem os vestígios do pessoal do terreiro, do cavaquinho, dos movimentos sociais, da capoeira, então eu quero contribuir com o meu trabalho na cidade onde eu moro, antes de sair daqui”, disse Elvis.

Sua proximidade com a arte e com as relações étnico-raciais começou ainda na infância, quando morava em uma fazenda como colono. Então, desde 2001, ele se dedica a pinturas relacionadas á cultura negra e outras brasilidades. O artista tem centenas de quadros nos acervos da Unicamp e Museu de Arte Contemporânea de Campinas. Na Semana da Consciência Negra, parte do seu trabalho, estará em exposição pelo MEC (Ministério da Educação), na Embaixada dos Ministérios, em Brasília. Seu acervo é considerado um dos maiores pintados em toda a América.

Ele também é coautor do livro Jamaica Brasileira, lançado pela Ibep (Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas), que conta histórias reflexivas sobre as relações étnico-raciais no Brasil, o qual Elvis enriquece com suas pinturas.

Dos quadros que ele dá mais destaque hoje, apesar de não abrir mão da riqueza de suas releituras de Di Cavalcanti, Portinari, figura de Zumbi dos Palmares, dentre outras, é a pintura de Nelson Mandela. Hoje, Mandela está passando por um momento delicado de saúde, entre a vida e a morte, e Elvis tem a oportunidade de prestar sua homenagem ainda enquanto ele está vivo.

“Eu tenho o Zumbi dos Palmares, mas ele a gente tem ainda bastante tempo para homenagear. Eu queria celebrar a figura de Nelson Mandela pelos seus 93 anos. Ele está passando por um momento delicado e será muito difícil ele enfrentar os próximos anos de vida. Ele faz parte de uma expressão social que tomou cunho a nível mundial. O que ele fez extrapola até a sua própria figura, superou toda uma brutalidade com uma não violência, afinal, o apartheid foi o pior regime de segregação que aconteceu no planeta”, explicou. “Mas também não posso deixar de destacar o quadro de Hércules Florence, que é uma figura impar, que conheceu profundamente todas as culturas e é aqui da Região de Campinas”, completou o artista.

As obras de Elvis vão além de um registro visual estético. É o retrato da riqueza nacional como o negro e o índio, aprimorado por todo um contexto de brasilidade que não só impressiona quem tem a oportunidade de apreciar, mas que ensina muito sobre a importância da valorização da cultura brasileira no cenário mundial.